Sábado, 3 de Novembro de 2007

RELEMBRANDO TERRAS DO QUITEXE - Cap. IV

 

O consumo de bens à disposição da população indígena, no mercado local, teve uma significativa explosão com a valorização do preço do café e o consequente aumento das áreas por eles cultivadas, chegando nalguns casos e nos últimos anos a utilizar mão de obra assalariada do Sul.

Os problemas mais graves entre brancos e pretos surgiram durante a demarcação das fazendas dos agricultores europeus quando estes não respeitaram os legítimos direitos dos povos já instalados, com os quais confinavam. Como esta população não dependia economicamente dos europeus, pelo facto de serem produtores independentes e não assalariados, não se geravam motivos para situações da conflitos graves, a não ser aqueles que resultam de desníveis de cidadania que por sua vez são a consequência, na parte que lhe cabe, não de graus de cultura, mas da natureza diferente das suas culturas, à mistura com algum racismo, para além daquele que é normal resultar da coexistência de duas raças no mesmo espaço e de que ambos eram responsáveis, ainda que em medidas diferentes. Tudo isto, mais cinco séculos de passado, determinou que o poder estivesse na mão dos brancos. Quando deixou de estar, viu-se o que aconteceu.

Esta independência económica era tão manifesta que levou um chefe de posto a decretar o absurdo: quem não fosse trabalhador por conta de outrem era obrigado a ir para o contracto e/ou a trabalhar na granja do posto. E assim passamos a contratar ficticiamente alguns agricultores locais, o que também era um modo de os fidelizar como clientes.

Hélio Felgas, que como governador do distrito do Congo foi paladino da utilização da “pressão da autoridade” na obtenção de contratados, explana, sem dúvidas para ninguém, o seu pensamento na obra já citada “ As populações nativas no Norte de Angola”:

 

“ Ainda hoje os hábitos de trabalho estão tão pouco arreigados que os nativos só chamam trabalho ao que executam por conta alheia. O trabalho por conta própria não é trabalho.

De resto só ultimamente têm aparecido no nosso Congo alguns voluntários para trabalho de conta alheia. A maioria só pela pressão da autoridade trabalha e mesmo assim fá-lo só para preencher determinado objectivo: Pagar o “alembamento”, adquirir bugigangas, etc. Uma vez satisfeito o capricho entendem que já não precisam trabalhar mais. E se a autoridade não faz pressão só voltam a trabalhar quando tiverem novo capricho.”

 

A “pressão” da autoridade foi até ao fim do mandato deste governador o único meio para atingir a contratação. Paredes-meias, ali ao lado, no Quitexe e nesta época o panorama era um pouco diferente(nesta data o Quitexe integrava-se no Distrito do Quanza Norte).

Paralelamente a esta população permanente havia a outra que trabalhava nas fazendas dos europeus e era temporária, equivalendo-se numericamente, não havendo entre elas qualquer tipo de relacionamento, o que explica o comportamento de cada uma, durante a guerra.

 Contratados do Sul

publicado por Quimbanze às 08:23

link do post | favorito
|
Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 


.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Um pormenor relevante mas...

. Cap. I - Geografia - O ...

. Cap. II - Aspectos sóci...

. Nome dos habitantes de al...

. Nome dos habitantes de al...

. Nome dos habitantes de al...

. Cap. III - Aspectos etnol...

. RELEMBRANDO TERRAS DO QUI...

. Cap. V - Os comerciantes

. O comércio

. PLANTA DO QUITEXE

. LEGENDA I

. LEGENDA II (continuação)

. LEGENDA II (continuação)

. LEGENDA III (Conclusão)

. Relação dos Chefes de Pos...

. Relação dos civis mortos ...

.arquivos

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

blogs SAPO

.subscrever feeds