Sábado, 3 de Novembro de 2007

Cap. V - Os comerciantes

 

 

A povoação comercial do Quitexe aparece nos primeiros anos da década de quarenta a partir do posto administrativo e da Delegação de Saúde, ligada à comercialização da produção indígena de café, que se iniciara uns anos antes. As primeiras casas comerciais desta época eram propriedade do agricultor do vale do Loge, Rui Pombo e do Ricardo Gaspar, geridas respectivamente pelo Rocha e pelo Jaime Rei. Seguiu-se a do meu irmão João Garcia e a do Celestino Guerra. Em 1954 já havia cinco estabelecimentos e respectivas residências anexas. Deste comércio resultava uma relação de interesses recíprocos entre as duas comunidades.

Casa de João Garcia ( à direita) e de Celestino Guerra em construção (à esquerda)

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O maior aumento da população europeia da Vila deu-se com a valorização do café poucos anos depois do fim da segunda guerra o que originou uma corrida ao ouro negro, de tal modo que surgiram comerciantes oriundos das mais diversas actividades. Todos os que tivessem conseguido amealhar algum pequeno capital que permitisse construir uma pequena casa comercial e um pouco mais para a abastecer com mercadorias quase simbólicas.

         Na maioria dos casos esta corrida resultou numa grande desilusão, cortando as asas á esperança de, a partir dali, vir a ter uma fazenda, como aconteceu nalguns casos. Toda a produção indígena, ainda que fosse dividida igualmente por todos os comerciantes, o que não acontecia, não dava para viver, ainda que modestamente. A única recompensa efectiva era passar nove meses em cada ano sem fazer nada, pois o período de comercialização de cada colheita só durava três meses e a venda de bens de consumo durante o resto do ano era muito escassa. Mesmo esta estava reservada aos comerciantes que tinham capacidade económica para conceder crédito aos maiores agricultores, à mistura com a maior ou menor habilidade de criar simpatias e cativar clientes na reduzida população local.

         Entretanto alguns foram desistindo e outros não chegaram a abrir as portas, até que a guerra reduziu drasticamente o seu número. Mesmo no período de maior desenvolvimento, nesta vila, nunca houve uma sociedade Quitexense, ao contrário do que sucedia, ali bem perto, em Camabatela. De facto não houve tempo para qualquer sedimentação social da população europeia. A primeira geração branca nasce no início da década de 50 (António Manuel Guerra -1950 - filho de Abílio e Helena Guerra , António Rei-1951 - filho de Jaime e Glória Rei, António José Garcia-1952 filho de João e Aline Garcia) mas, com o início da guerra logo se dispersa concentrando-se nos meios urbanos maiores ou, mesmo regressando a Portugal.

         No entanto a Vila progrediu: Foi asfaltada a nova estrada para Luanda, pelos Dembos, foi construída a escola primária, adaptaram-se a novas instalações hospitalares os acampamentos da TECNIL, construiu-se o clube com sala para cinema (feio, mas grande), a igreja e casa paroquial, um campo de futebol e uma pista para aterragem de pequenos aviões.

Durante a guerra talvez a população europeia pouco tivesse diminuído. O comércio orientou a sua actividade noutro sentido, menos numeroso, mas mais evoluído, pois a sua clientela era diferente nos seus hábitos, mesmo a indígena, os havia alterado. Era a guarnição militar da zona, o corpo de voluntários e a maior parte dos empregados das fazendas que passaram a abastecer-se nos estabelecimentos da Vila. Simultaneamente abriram bares e restaurantes para servirem a nova clientela e toda a população que, entretanto, sem se dar conta, tinha alterado os seus hábitos.

         A tropa, tomando de arrendamento quase todas as casas devolutas, deu à povoação uma nova fisionomia para a qual também contribuiu a instalação de uma enorme senzala, pode dizer-se que incorporada na Vila, através de uma zona de transição habitada por brancos e negros. Chamava-se Kadilonge que, suponho, quer dizer “onde se aprende”.

 

Apesar de tudo, foi a população europeia constituída pelos comerciantes que manteve com as populações locais os laços visíveis e efectivos da coexistência pacífica, possível durante os anos em que lá permaneceu. Creio que estes laços se manterão na memória de uns e de outros que ainda pertençam ao número dos vivos.

publicado por Quimbanze às 08:21

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